quinta-feira, 28 de agosto de 2014
Slater X Florence - Empate técnico e embate psíquico
O começo até nem fazia prever o que estava para acontecer. Com 10 minutos serenos, sem qualquer onda surfada, o heat foi recomeçado – tal como viria a acontecer na final. Novamente 35 minutos a contar... E assim que a buzina toca John John abre as hostilidades com (mais) um tubo incrível, deixando os seus fãs em polvorosa e os de Slater quase em estado de choque. Na verdade, nem existiu tempo para sequer alguém reagir, pois Kelly veio na de trás e fez o seu segundo 10 perfeito neste último dia do Billabong Pro Tahiti, graças a uma onda verdadeiramente gigante e a uma linha irrepreensível.
Os dados estavam lançados para a segunda meia-final em Teahupoo, que encontraria o adversário de Medina na final. Slater somava 10 pontos e John John 9,90. Alguém se lembra de um primeiro minuto de heat assim? Estaríamos perante a possibilidade do primeiro empate a 20 da história. Talvez essa fosse uma possibilidade, mas face à monstruosidade apresentada por ambos, foi natural que os juízes tivessem de reajustar as pontuações seguintes, ou então corríamos o risco de ter mais notas 10 naquele heat que no campeonato inteiro.
Por entre os histerismos vindos do canal, dando o sinal de que mais um set vinha a caminho, Florence não perdeu tempo em responder à primeira troca de ondas apanhando uma bomba onde ficou bem deep e que lhe rendeu 9,10 pontos. Poucos minutos depois era a vez de Slater. O careca foi numa onda mais pequena que as anteriores e que lhe rendeu a nota mais baixa do heat. Um 5? Um 6? 7? Não, foi mesmo um 8,17 a pontuação mais baixa deste duelo, o que revela bem os níveis de eficácia com que ambos estavam.
Seguiu-se uma pausa para respirar – bem que todos nós precisávamos, até mais do que eles - e, qual jogo do gato e do rato, JJF volta ao ataque. Mais um momento intenso em Chopes, com o havaiano a ficar bem deep. Estando na liderança a ter que melhorar uma nota de 9,10, seria esta onda suficiente para aumentar a vantagem? Sim, seria. Saiu 9,40. O problema foi que Slater não perdeu tempo a responder e com 9,77 pontos recuperou a liderança. Praticamente de pé e sem agarrar o rail, o rei foi mais veloz que o tempo e saiu bem à frente da foam ball. Com 19 minutos para o final, KS somava 19,77 pontos contra 19 de John John – Ace Buchan podia ficar descansado, pois já não iria ser o único surfista a ser eliminado com um score na casa dos 19 pontos...
Ainda só estávamos a meio e a coisa já tinha pegado fogo. Talvez nem nos mais intensos duelos entre Kelly e Andy Irons, o rival de sempre do careca e conterrâneo de Florence, tenhamos assistido a algo assim. É que ainda sobrava tempo para mais ação. É incrível como alguém com 19,77 pode estar a meio de um heat com a sensação de credo na boca, sabendo que do outro lado pode vir a reviravolta. É insano, mesmo. Nem os melhores guionistas das "novelas" do Wrestling americano teriam encontrado um plot tão espetacular e eficaz como este.
Contudo, nos minutos seguintes o mar não deu grande sinais de perfeição e ambos ficaram na marcação, a recuperar fôlego depois de um arranque diabólico. Quis o destino que a pausa tenha servido para unir os elementos e enviar um set daqueles decisivos para os últimos segundos. Era a cereja no topo do bolo. O que poderíamos pedir mais? A prioridade estava com JJF, uma vez que KS a tinha perdido a remar em vão para uma onda. A 45 segundos da buzina tocar, o havaiano atira-se literalmente de cabeça para uma bomba, fazendo um drop incrivelmente crítico, agarrando o rail para estabilizar e andando lá dentro uma eternidade... Era a carga dramática que faltava.
John precisava de um 9,88 para virar e é natural que, no calor do momento e dada a emoção que envolveu o heat, muita gente tenha pensado imediatamente no 10, tanto os que estavam por John John como os do lado de Kelly. Entrou-se numa longa espera pela nota, já com a disputa findada, e é então que alguém decide tornar a situação ainda mais épica. Peter Mel na água com o microfone na mão, fazendo as entrevistas que foram inovadoras neste campeonato. De um lado Slater com um sorriso na cara, embora meio amarelo. Do outro, John John calmo, mas ao mesmo tempo impaciente, já sem bocejar como fizera antes do começo do mesmo. E meio mundo à espera do desfecho do último episódio da novela mexicana. Qual Hollywood? A ASP conseguiu agarrar ali e congelar durante momentos um produto super valioso, dando seguimento ao espetáculo que se tinha visto durante o heat.
As notas começam a sair e Mel solta-as uma a uma, com ambos a seu lado, sem saberem o que iria sair dali. Após três notas, percebe-se que vai ser bem equilibrado. Uns juízes deram a nota e outros não e no final sai um 9,87 que deixa tudo em empate técnico (19,77x19,77), mas com Slater na final por ter tido a nota mais alta. High Drama em Teahupoo, nas televisões e nos computadores espalhados pelo Mundo e, logo de seguida, nas redes sociais. Muitos reclamaram que Slater foi beneficiado. É verdade que também a nós nos pareceu que a última onda seria suficiente para aquela nota sair. Embora se analisarmos as duas melhores ondas de ambos, fiquem algumas dúvidas. É uma situação delicada. O resultado final pode até parecer encenado, mas tratou-se de pura coincidência. Ignorando que tenha havido um surfista eliminado, foi o final perfeito para o melhor heat de sempre da história da ASP. Bem que poderiam ter passado os dois à final.
Talvez a diferença mínima entre o sucesso e a eliminação de Florence se deva à falta do "veneno" que Irons tinha. A garra, o querer vencer acima de tudo, a rivalidade. John John tem o estilo, a técnica, a elegância, mas falta-lhe uma atitude competitiva mais feroz. Em Pipeline, no ano passado, também já havia perdido uma disputa histórica com Slater. Talvez se tivesse tudo isso estivéssemos agora na presença de uma nova rivalidade dominante no surf mundial, capaz de ofuscar as batalhas de Kelly versus Irons. Mas não. Estamos "só" na presença de algo que será inesquecível durante muitos e bons anos. Nem nos devíamos queixar disso...
A final esteve perto de voltar a ser um golpe de teatro. A cena já fora do heat, com a espera pelos scores, até se repetiu, mas caso o milagre para Slater acontecesse, seria mesmo isso, ou milagre. Ou melhor, uma situação forçada. Depois de perder uma onda decisiva bem perto do final, Slater remou para o pico com pouco mais de um minuto para o final e ainda conseguiu apanhar uma onda debaixo da prioridade de Medina. Faltavam 20 segundos para o fim. Mais um episódio épico. Muitos podem pensar que o brasileiro confiou no potencial da onda, ou na falta dele, mas pensamos que ele ficou mesmo foi sem reação perante a tentativa desesperada do rei.
É natural que muitos quisessem a vitória do melhor de sempre no melhor campeonato de sempre, mas a onda não chegava. A não ser que a remada final também contasse para a nota. Os scores voltaram a pipocar sob a voz de Peter Mel. Kelly precisava de 9,33. Saiu 9,30... Uma nota que pode parecer um pouco inflacionada, mas que foi o suficiente para voltar a dar uma enorme carga de drama ao Billabong Pro Tahiti 2014, sem tirar a vitória, justa, a Medina. Se a última onda tem sido melhor, talvez estivéssemos aqui a dissertar sobre qual o melhor heat de sempre, se o da meia-final ou o da final. Mas, assim, não restam sequer dúvidas.
O sucesso do campeonato e da afirmação deste como o melhor de sempre deve-se em grande parte ao heat estratosférico entre Kelly Slater e John John Florence. É o argumento para arrumar com qualquer tentativa de afirmar outro qualquer campeonato como melhor que este. Foi história escrita perante os nossos olhos. E nada melhor do que votar a vê-la. O melhor heat a que o surf já assistiu está aqui bem por baixo e na íntegra. Será que desta vez voltam a terminar empatados? Desde que vimos o que vimos ontem já nada nos surpreenderia...
Fonte Surf Portugal
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